A presença da onça-pintada no Pantanal deixou de ser associada exclusivamente ao conflito com a pecuária e passou a representar uma das principais forças do turismo ecológico brasileiro.

Hoje, o animal é protagonista de uma atividade que movimenta milhões por ano e reposiciona a imagem da região no cenário internacional.
Onça-pintada no Pantanal: de predadora temida a estrela do ecoturismo
A mudança de percepção sobre o felino é resultado de anos de pesquisa e convivência controlada. Um dos pilares desse processo é a chamada habituação — técnica que permite a aproximação gradual entre humanos e animais sem interferir no comportamento natural.
Em conversa com o portal Campo Grande News, a bióloga e guia bilíngue Carolina Kara Prange, que atua na fazenda Caiman, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, afirma: “Hoje em dia poucos hóspedes chegam com receio das onças. A maioria vem maravilhada”.
Segundo ela, o fascínio vai além da raridade: “A gente consegue identificar individualmente. Cada uma tem suas rosetas, sua personalidade. É um animal complexo, incrível de estudar”.
O processo foi acompanhado de perto pela gerente de Ciência e Ecoturismo da Onçafari, Lilian Rampim. Em entrevista à National Geographic Brasil, ela explicou que a aproximação começou com veículos a mais de 200 metros de distância, evoluindo gradualmente ao longo de meses.
Após cerca de nove meses, já era possível observar as onças a aproximadamente 12 metros, sem interferir em seu comportamento.
Avistamento de onça-pintada cresce e transforma experiência turística
Os resultados desse trabalho são visíveis. Em 2012, apenas 16% dos visitantes conseguiam avistar uma onça na região da Caiman. Em 2025, esse índice chegou a 99%.
Com a habituação, os animais deixaram de associar veículos à ameaça. “Elas entenderam que o carro é um elemento neutro. Continuam fazendo as ‘coisinhas de onça’ delas, enquanto a gente observa”, explica Carolina.
A rotina de observação segue o ritmo da natureza, com saídas ao amanhecer e no fim da tarde, horários de maior atividade do felino.
O biólogo e guia Maurício Abib destaca o caráter imprevisível da experiência. “Cada avistamento é surpreendente”, afirma. Ele relembra uma cena incomum: “Antes ela tinha tentado caçar uma capivara. Depois, vimos a mesma onça caminhando ao lado de um tamanduá. É uma complexidade absurda”.
Turismo com onça-pintada gera milhões e muda economia local
O impacto econômico acompanha essa transformação. Estudos liderados pelo pesquisador Fernando Tortato indicam que o turismo de observação da onça movimenta cerca de US$ 6,8 milhões por ano no Pantanal Norte.
Segundo ele, o valor pode ser ainda maior atualmente devido ao crescimento do setor.
Além disso, o retorno financeiro supera em até 52 vezes atividades tradicionais na mesma área, enquanto os prejuízos com ataques ao gado são estimados em cerca de US$ 120 mil anuais.
“Ela deixa de ser vilã e passa a ser uma heroína, um símbolo do Pantanal”, declara Tortato.
O turismo também gera empregos e movimenta toda a cadeia local. Em regiões como Porto Jofre, mais de 95% dos visitantes são estrangeiros, atraídos pela possibilidade de observar a vida selvagem em estado natural.


